A Política Urbana e Habitacional no Brasil:
Memórias de 1986 a 2000










Entre o início dos anos 1980 e o final dos anos 1990, o Brasil vivenciou uma fase de inovações em diversas administrações municipais. Definida nesta pesquisa como o Ciclo Virtuoso das Prefeituras Democráticas e Populares, foi um período em que, quase exclusivamente com recursos próprios, essas prefeituras fizeram a diferença na política urbana e habitacional.
Esse momento é reconhecido por gestões alinhadas com a busca pela superação das históricas desigualdades sociais em diversas cidades brasileiras, marcando um importante momento de transformações. O ciclo engloba principalmente os anos de 1986 a 2000.
Em vez de se apoiarem nas ações desenvolvidas nos países do “primeiro mundo”, essas prefeituras desenvolveram propostas originais e adequadas ao contexto brasileiro.
Ao não adotarem “ideias fora do lugar”, conforme cunhou Roberto Schwarz, responderam às demandas imediatas das cidades brasileiras com propostas baseadas na inversão de prioridades nos investimentos e nos serviços oferecidos à população.
Essas iniciativas confrontaram o fisiologismo e as formas de privatização da esfera pública, distinguindo-se pela participação direta da população em um processo contínuo de construção de cidadania.
Durante o ciclo virtuoso, vários programas alcançaram repercussão no exterior, sendo implementados em outros países ou destacados em eventos internacionais da ONU-Habitat. Entre os mais celebrados, destacam-se o Orçamento Participativo, os Corredores de Ônibus e a Urbanização de Favelas.
Os programas abrangiam temas diversos como descentralização administrativa, conselhos populares, integração de transportes, tarifa social e tarifa zero, agricultura urbana, segurança alimentar, equipamentos públicos, além de iniciativas em saúde e educação.
Nesse período, o direito à arquitetura foi amplamente defendido por meio de experiências de produção em cogestão com associações de movimentos de moradia e assistência técnica de arquitetos, engenheiros, advogados e assistentes sociais, em contraste com a repetição dos modelos de conjuntos habitacionais típicos do regime militar.
O encerramento do ciclo deve-se a uma conjunção de fatores políticos e econômicos. No entanto, as condições estabelecidas ao longo de quase duas décadas de experiências inovadoras nos municípios foram fundamentais para a eleição de um governo federal que deu início a uma nova fase de envolvimento em questões urbanas e habitacionais.
Quarenta anos após as primeiras experiências e uma década turbulenta que gerou novas fissuras na democracia brasileira, resgatar as memórias do Ciclo Virtuoso das Prefeituras Democráticas e Populares pode abrir caminhos para refundar utopias e reinventar a política. É o que este site busca provocar em quem navega por ele.







Impressos como folders, cartazes, livretos e panfletos por muito tempo foram fundamentais na mobilização e no engajamento comunitário, funcionando como ferramentas de agitação e propaganda.
Esse material pode promover a disseminação de informações, popularizar o acesso ao conhecimento e ampliar a conscientização sobre políticas e iniciativas governamentais, estabelecendo uma comunicação “corpo a corpo” com os cidadãos.
Cartazes e panfletos, em particular, foram amplamente utilizados como instrumentos de mobilização social pelas gestões municipais durante o ciclo virtuoso, tendo sido empregados em campanhas destinadas a informar a população sobre direitos civis, consultas públicas e orçamentos participativos, incentivando a participação popular nas decisões locais. Esses materiais comumente exibiam slogans e imagens impactantes que chamavam atenção aos problemas do cotidiano dos cidadãos, motivando-os a agir e a participar ativamente.
O uso frequente de histórias em quadrinhos, charges e ilustrações facilitava a compreensão e engajava a população de maneira envolvente. Esses formatos simplificavam conceitos, tornando a aprendizagem acessível e atraente para todos os níveis sociais e faixas etárias.

Durante a realização de um orçamento participativo, folders explicativos detalhavam o processo e os mecanismos de participação cidadã, garantindo que todos tivessem a oportunidade de entender como poderiam contribuir e influenciar a distribuição dos recursos municipais.
Os impressos também funcionavam como registros físicos das atividades governamentais e serviam para a prestação de contas das ações e serviços oferecidos pelas prefeituras, sendo até publicados como livretos de bolso.
Jornal da USP, dez. 2025
Por Ivanir Ferreira
Entre as iniciativas estão mutirões para construção de moradias de interesse social com assistência técnica e jurídica, orçamento participativo, programas de segurança alimentar e soluções no transporte público
📰 Prefeituras brasileiras tiveram seu ciclo virtuoso entre final dos anos 1980 e 2000
Jornal da USP, nov. 2025
Por Antonio Carlos Quinto
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Pesquisa de doutorado desenvolvida na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP recupera aspectos da memória da política urbana e habitacional no contexto das prefeituras democráticas e populares
Jornal da USP, dez. 2024
Por Carolina Borin
Criado a partir de pesquisa de doutorado na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design da USP, site oferece documentos e arquivos multimídias
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artigo na edição impressa